O que significa vício oculto
Vício oculto é o defeito que já existia quando o carro foi vendido, não dava para perceber num exame comum na hora da compra, e aparece depois. Não é qualquer problema que surge depois da compra — peça que se desgastou com o uso é outra coisa, e essa diferença decide quase toda discussão sobre carro usado.
Há uma verdade que costuma ficar de fora do argumento de venda, inclusive do nosso: em carro usado, certeza absoluta não existe. Não existe com laudo cautelar, não existe com perícia mecânica, e não existe aqui. O que existe é a diferença entre uma loja que sabe disso e organiza a operação em torno do risco, e uma que finge que ele não está lá.
Três características costumam ser usadas para descrever um vício oculto: o defeito já existia antes da venda, ainda que em estado latente; ele não era perceptível num exame comum feito na hora da compra; e ele compromete o uso ou o valor do bem. Compare com o que não é vício oculto e a fronteira fica visível. Defeito aparente é o que estava à vista quando você comprou, do estofamento rasgado ao pneu careca. Desgaste natural é a peça que existe para gastar: pastilha, disco, palheta, bateria, embreagem em uso normal. E dano posterior é o que aconteceu depois, de uma colisão a uma manutenção que não foi feita.
A compra feita em loja e a compra feita entre particulares não são tratadas da mesma forma, e isso não depende de nada que esteja escrito nesta página. Este guia descreve o conceito para você entender a conversa. Ele não é parecer jurídico, não vale como orientação sobre o seu caso e não substitui quem pode dar essa orientação: se a sua dúvida é sobre os seus direitos, sobre o seu contrato e sobre o seu carro, o caminho é o Procon ou um advogado.
Por que certeza absoluta não existe em carro usado
Quatro motivos, e nenhum deles é falha de quem examina.
Um carro usado é um objeto com história que ninguém reconstrói inteira. Quem vendeu pode não saber o que foi feito antes dele; quem usou pode não lembrar; e o serviço feito na oficina da esquina, pago em dinheiro e sem nota, não deixa rastro em base nenhuma.
Toda inspeção é uma foto de um dia. Um componente dentro da especificação hoje pode falhar no mês que vem, e isso não torna o exame errado — torna o exame o que ele é: um retrato técnico daquele carro naquela data.
Fadiga de material não avisa. Peças acumulam ciclos de esforço e cedem num ponto que nenhum exame não destrutivo enxerga sem desmontar. E desmontar um motor sadio para saber como ele está é caro, demorado e costuma devolver o motor pior do que ele entrou.
Sintoma intermitente é intermitente. O ruído que aparece a cada dez partidas a frio pode simplesmente não aparecer no dia da perícia — e não aparecer não é o mesmo que não existir.
Isso vale para qualquer carro usado, inclusive os que a gente vende. Quem promete um usado sem risco está vendendo uma frase, não um carro.
O que a perícia cautelar alcança e o que não alcança
A perícia cautelar examina três eixos. Identificação: numeração de chassi, motor e câmbio, etiquetas distribuídas pela carroceria, gravação em vidros, tudo cruzado com o documento. Estrutura: longarinas, colunas, assoalho, torres de suspensão, pontos de solda e espessura de pintura, que é como se detecta reparo em painel estrutural. Histórico: passagem por leilão, registro de sinistro, ocorrência de roubo ou furto, gravame, restrição e débito.
O crivo de 120 pontos que a gente cita é dessa perícia. É exame de procedência, não exame de mecânica — e a distinção é a coisa mais importante desta página. A perícia cautelar não abre motor, não mede compressão de cilindro e não avalia bomba de alta pressão. Um carro pode passar folgado nela e ter um problema mecânico que ela nunca teve como ver. A fronteira completa está em Laudo cautelar: o que verifica e o que não verifica.
Do lado de cá, o que a gente faz com isso. Perícia cautelar independente em todo veículo, antes da vitrine. Troca de óleo e filtros em todo carro que entra. E perícia mecânica nos carros que levantam suspeita na avaliação do time — ela não é etapa obrigatória de todo carro; é sob demanda e exploratória, disparada por sinal concreto: óleo na tampa de válvulas ou no bloco, fumaça persistente, marcha lenta irregular, luz de injeção, solavanco ou atraso de engate no câmbio, ventoinha ligando cedo, ruído de suspensão, revisão sem comprovação, quilometragem incompatível com o estado.
Nada disso elimina o risco, mas há o que reduz. Um exame feito por quem não tem interesse na venda vale mais do que um feito pelo próprio vendedor. Histórico de manutenção com nota fiscal é a única prova de que a revisão aconteceu, e a falta dela é, por si só, um motivo para desconfiar. Conjunto caro e sensível pede avaliação mecânica separada, contratada por você, porque nenhuma perícia de procedência responde por ele — é o caso do motor turbo de baixa cilindrada e do câmbio de dupla embreagem. E test-drive longo, com o carro frio no começo, mostra o que um giro de dez minutos no quarteirão nunca mostra.
Duas coisas que a gente ainda não entrega, e que preferimos escrever do que deixar você descobrir. O laudo da cautelar fica com o vendedor e sai a pedido — peça, leia inteiro e não se contente com o resultado resumido. E não existe hoje um registro dessa etapa mecânica entregue ao cliente; se quiser saber o que foi olhado no seu carro, pergunte ao vendedor.
O que dá para esperar de uma loja séria
Cinco coisas, e nenhuma delas depende de boa vontade no momento em que o defeito aparece. Todas dependem do que foi feito antes dele.
Que o exame tenha sido feito antes do anúncio, por conta da loja, e não depois da sua proposta e à sua custa. Quem examina antes assume o custo de descobrir o problema e o prejuízo de recusar o carro; quem examina depois transfere os dois para você.
Que o documento exista e esteja disponível para leitura antes de qualquer assinatura, sem você precisar insistir.
Que o que foi encontrado seja dito, com as palavras certas. Aprovado, com apontamento e reprovado são três resultados diferentes, e um apontamento descrito na hora certa não derruba negócio nenhum — o assunto é Laudo cautelar: aprovado, com apontamento ou reprovado.
Que exista garantia por escrito, com prazo e escopo legíveis antes da assinatura, e não uma promessa verbal de que "qualquer coisa a gente resolve".
Que o telefone seja atendido depois da venda, e que exista um caminho combinado para quando algo acontecer — com nome, endereço e procedimento.
A garantia é a resposta ao que não dá para ver
A perícia resolve o que dá para enxergar. A garantia banca parte do que não dá — e é essa a relação entre as duas, uma sendo consequência da outra.
A garantia da Motors Store cobre falha interna de motor, câmbio e diferencial, por três meses ou 5.000 quilômetros, o que vier primeiro, contados da entrega, sem carência, sem franquia, sem termo de isenção e com mão de obra inclusa. Ela não cobre desgaste, como pastilha, disco, pneu, palheta e bateria; não cobre manutenção, como óleo, filtro, vela e correia; não cobre embreagem em uso normal, bombas, fluidos, remap e peça fora de especificação; não cobre evento externo, de colisão a enchente e granizo; e não cobre transporte, guincho, alimentação e hospedagem.
A regra mais importante dela cabe em uma linha: se acontecer alguma coisa, avise a loja antes de levar o carro a qualquer oficina. O conserto é feito em oficina parceira credenciada indicada pela gente — são mais de quinze, separadas por especialidade — e é essa indicação que garante que alguém responda pelo serviço depois.
Existe ainda um plano estendido, opcional, contratado à parte e administrado pela Gestauto, com regras próprias de cobertura, de acionamento e de manutenção obrigatória. Contratar é opcional e não muda preço, financiamento nem a entrega do carro.
Nada disso é a única proteção que existe numa compra de loja, e nenhuma linha desta página diz o contrário. O que a garantia é: o que a gente banca, por escrito, sem você precisar cobrar. Sobre direitos previstos em lei e sobre o seu caso específico, quem orienta é o Procon ou um advogado — não é conversa de vendedor, e a gente não vai fingir que é.
E é por isso que o filtro na entrada é tão fechado. De cada dez carros avaliados, três entram. Carro que exige abrir motor ou câmbio para se saber o estado real não entra, porque comprar conjunto fechado é aposta — e a conta dessa aposta, quando dá errado, chega para quem comprou o carro, não para quem apostou. Se o carro que você está olhando tem câmbio de dupla embreagem, o teste específico está em Câmbio de dupla embreagem em carro usado: o que checar.
O que fazer agora
Antes de fechar qualquer compra, faça três perguntas ao vendedor: quem examinou este carro, quando, e o que foi encontrado. Peça o documento e leia inteiro. Depois leia a garantia que vem com ele — prazo, escopo, exclusões e o que fazer quando algo acontece.